Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

O Físico Prodigioso

É o próprio autor quem diz,

“Este conto, ou, mais exactamente, novela, é desenvolvimento muito ampliado e, se quiserem, muito deturpado de dois ‘exemplos’ do Orto do Esposo, o belo livro moralístico-religioso da literatura portuguesa da primeira metade do século XV. Estes dois exemplos narrativos – o do homem com poderes mágicos de cura com o seu sangue e de ressurreição dos mortos, e o homem que não pôde ser enforcado, porque o Diabo o protegia levantando-o no ar – nada têm que ver um com o outro, e estão mesmo em lugares muito diversos no texto quatrocentista: o primeiro no Capítulo I do Livro III, e o segundo no Capítulo XI do Livro IV.”

Morra o bispo e morra o papa,
maila sua clerezia.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!
Morram frades, morram freiras,
maila sua virgaria.
Ai rosas de sangue e leite,
que só a terra bebia!
Morra o rei e morra o conde,
maila toda fidalguia.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!
Morram meirinho e carrasco,
maila má judicaria.
Ai rosas de sangue e leite,
que só a terra bebia!
Morra quem compra e quem vende,
maila toda a usuraria.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!
Morram pais e morram filhos,
maila toda afilharia.
Ai rosas de sangue e leite,
que só a terra bebia!
Morram marido e mulher,
maila casamentaria.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!
Morra amigo, morra amante,
mailo o amor que se perdia.
Ai rosas de sangue e leite,
que só a terra bebia!
Morra tudo, minha gente,
vivam povo e rebeldia.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!


Jorge de Sena, in O Físico Prodigioso

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